É hora de pôr barbas de molho e devolver aos sócios’, diz CEO da Allos

Maior empresa de shopping centers no país, com 45 imóveis no portfólio, a Allos vai correr menos riscos, investir menos, distribuir mais lucro ao acionista, e voltar a se alavancar lá na frente, se for preciso. Nas palavras de Rafael Sales, presidente da empresa, em entrevista ao Valor, trata-se de precaução.

É hora de pôr as barbas de molho, segundo ele – faltando menos de um ano para as eleições e com taxas de juros anuais de 15% – e focar em busca de eficiência interna. O mercado gostou da expectativa da ganhos maiores aos acionistas e a ação da empresa subia 4% na manhã desta quinta-feira (13).

“O risco em uma empresa rica, com um monte de caixa, é fazer bobagem. Então, o melhor é devolver para o acionista. Quando surgir a oportunidade, eu levanto novo capital. Por que a gente pode se dar ao luxo?  Porque eu posso realavancar a companhia e ainda continuar com pouca dívida. Eu posso sair de 1,7 para ir para 2,5 , e ainda estou baixo. Ir de pouquinho em pouquinho”, disse ele.

“Eu posso fazer movimento no momento certo. Principalmente, com um cenário macroeconômico mais claro. Então, hoje eu prefiro esperar. E para esperar, eu não preciso ficar com R$ 3 bilhões de caixa. Eu posso ir realavancando”, afirmou. Em setembro, o grupo tinha R$ 3,1 bilhões de caixa final.

Desde que avançou a fusão de BR Malls e Aliansce Sonae, Sales tratou de desalavancar a empresa — tem o menor índice hoje entre as abertas — e fez isto dentro dessa ideia de dar outro passo num cenário mais incerto. “Por isso que eu quis uma empresa mais leve do ponto de vista de balanço, para pagar mais dividendos e ser uma empresa mais previsível. Eu vou ter menos crescimento mas vou ser mais previsível, vou ter pouca dívida e vou poder remunerar bem o acionista, então cada um tem a sua tese de acordo com o momento”.

Dentro dessa lógica, a empresa anunciou, na noite de quarta-feira (12), recuo de investimentos e distribuição de lucros.

A estimativa de despesas de capital ficará entre R$ 350 milhões e R$ 450 milhões, em 2026 — em 12 meses acumulados, a soma alcançou R$ 500 milhões, sem incluir desembolsos com aquisições. Ao incluir esse valor, isso alcança R$ 537 milhões.

Haverá redução de R$ 100 milhões em relação ao intervalo esperado para 2025, disse o grupo no material de resultados.

Ainda no documento, a Allos afirma que esse patamar reflete uma redução significativa em relação aos níveis pré-unificação dos negócios, representando uma queda de 51%, considerando o ponto central da projeção para 2026 em relação a 2022 inflacionado.

A projeção leva em consideração a decisão da companhia de focar em projetos menores, de rápida implementação e maior retorno, dado o cenário macroeconômico incerto para o ano de 2026, disse em fato relevante, publicado na noite de quarta-feira (12).

O grupo ainda disse que pretende distribuir dividendos e/ou juros sobre capital próprio mensais aos acionistas durante todo o ano de 2026, entre R$ 0,28 e R$ 0,30 por ação, por mês — algo que vem em linha das declarações dele de redirecionar recursos aos acionistas e se alavacar lá na frente, se preciso for.

Com Lula x Sem Lula

O maior sócio da empresa é a gestora Canada Pension Plan Investment Board, com 12,9% das ações. A Cura Brazil tem 6,3%. Renato Rique, co-fundador da Aliansce, soma 3,2% em dois veículos de investimentos somados. A Guepardo Investimentos tem 5%, e 61,4% é o volume em circulação no mercado.

Sales afirma ser precavido porque é hora de estar com as barbas de molho. “Não pode deixar a empresa ficar muito rica, porque empresa rica vira arrogante. E não pode ter muito caixa, então, tem que distribuir um pouco de caixa para a empresa ficar esperta até para o mercado entender que a gente não vai fazer bobagem e que retornamos para aqueles que confiam em nós”, afirma.

Na sua visão, chegando no momento de definição política, num cenário de troca de governo tem uma possibilidade maior de reformas, e se vier manutenção do governo, então existe um lado de um copo meio cheio pra ser visto. “Porque seria, eventualmente, o último mandato do atual presidente Lula, e ele pode querer fazer ajustes para entregar o Brasil bem, e se isso acontecer, a gente pode ter um cenário de investimento também positivo, não tão quanto um cenário de reformas, mas um cenário positivo”.

Segundo o BTG Pactual, a distribuição de dividendos por ação anunciada é muito maior que a prevista (rendimento de 13% sobre 2026, versus previsão do banco de 4,5%), e a companhia está num trabalho diferente daquele que se viu após a fusão, e voltada mais para revisão de custos e ganhos de eficiência.

Nesse sentido, a Allos está mudando o “chip” interno: se antes, no começo da integração após fusão, vinham sendo menos rigorosos com despesas, para ter melhora de qualidade dos ativos e dos serviços, nos últimos meses, isso está no radar central. No passado, a Aliansce sempre foi mais focada no cliente, e BR Malls, em processos.

“Lá atrás, a gente tinha que melhorar a qualidade. Então, a gente focou nisso. A gente focou em ter um portfólio menor, mais homogêneo. Então, a gente vendeu 10, 12 shoppings. E montamos um sistema que permitisse que eu administrasse e integrasse de uma forma mais previsível a companhia. E aí, depois perfilamos a dívida inteira. E a gente não tem vencimento até 2028. A gente empurrou tudo. Agora eu consigo olhar para dentro com cuidado, e ver a oportunidade de ganho de eficiência, de redução de despesas, de repensar a estrutura organizacional”, disse ele.

Freio de mão

Sales diz que tem uma fase a concluir agora de expansão e o ritmo deve baixar. Afirma que são três expansões principais que serão inauguradas nos próximos meses, a última em abril de 2026, sendo a maioria de pequena expressão, dentro dessa ideia de queda natural de desembolsos “para os próximos anos”.

“Não faz sentido fazer uma grande expansão. Nesse momento, são só coisas menores, que a gente vai continuar fazendo, o que eu chamo de redesenvolvimento”.

Para analistas, o balanço do terceiro trimestre, publicado na noite de ontem (12), veio sem surpresas, com desempenho operacional “razoável” diz o BTG, apesar de vendas “mesmas lojas” (pontos com mais de 12 meses) crescendo 2,9%, abaixo de Iguatemi (5,8%) e Multiplan (4,8%).

Fonte: Valor Econômico